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quinta-feira, setembro 22, 2005


Uma amiga especial


Começou mais ou menos em Maio. Os dias eram quentes e a janela do meu quarto estava aberta dia e noite. Quando vinha das aulas, por volta das 7 da tarde, sentava-me,a estudar, à mesa de camilha que estava em frente da janela de sacada com uma pequena varanda. Um dia ela poisou no parapeito da varanda, fiquei tão admirada que esfreguei os olhos, devagar, julgando estar a sonhar, sustive a respiração com medo de a assustar, respirei o mais silenciosamente possivel e comecei a falar com ela baixinho. Parecia gostar do tom da minha voz porque ficou a olhar para mim, empoleirada no parapeito da varanda, muito quieta, com a cabeça inclinada. Era a maior coruja branca que eu já tinha visto. E estava ali, à minha frente, como se me estivesse a admirar.
Sempre adorei corujas mas nunca tinha visto nenhuma de tão perto, em liberdade e empoleirada no parapeito da varanda do meu quarto. Fugiu quando um dos meus filhos bateu à porta e – como de costume – mesmo antes de eu responder a abriu ruidosamente.
Eu contei o que tinha acontecido mas ninguém acreditou.
“ – Pois Mãe, conte outra! Uma coruja branca aqui, em S. Amaro de Oeiras e na sua janela!!!!!!!!!! Estava a dormir e sonhou com isso......
- Mas é verdade! Era uma coruja branca. Eu nao sonhei, estava a estudar e não a dormir.”
Mas não houve processo de os convencer que era verdade. Eu própria comecei a duvidar do que tinha visto e não falei mais do assunto.

Três ou quatro dias mais tarde, quando cheguei das aulas, poisei os livros em cima da mesa e, antes mesmo de me sentar, ouvi um esvoaçar pesado e.........lá estava ela. Desta vez comecei a cantar, primeiro baixinho e gradualmente levantei a voz para que os miudos me pudessem ouvir:
“ – Tenho uma coruja branca na minha janela...........tenho uma coruja na minha janela....abram a porta devagarinho se a querem ver...........mas não façam barulho.”
Cantei isto procurando uma melodia mais ou menos monocordica para que a coruja não se assustasse mas, claro, as crianças excitadas, abriram a porta com força e, aos berros, perguntaram onde estava a coruja. Ainda a conseguiram ver levantar voo e assim acreditaram no que tinha contado.
A partir desse dia as visitas eram diarias. Ficava 10 minutos às vezes um pouco mais, dava uma volta por cima da mesa e ía-se embora e eu contava-lhe o que tinha feito durante o dia.
Lembro-me de uma noite em que arrefeceu muito e eu não abri a janela , ela voou duas ou três vezes batendo com as asas no vidro. Corri a abrir a janela, evidentemente.
Assim passaram alguns meses , com a minha amiga alada a fazer-me companhia com as sua visitas diárias. Um dia vinha a subir a rua , da estação dos comboios e, qual não é o meu espanto, lá vinha ela voando alto para me acompanhar a casa. Desde esse dia deixei de subir aquela rua sozinha. Tinha sempre a minha amiga a fazer-me companhia lá no alto. Contei de novo aos meus filhos e, desta vez, já não duvidaram. Chegaram mesmo a presenciar a minha Branquinha ir-me buscar à estação. Chegou o Verão e eu entrei em férias. Durante 2 semanas deixei de ver a Branquinha e fiquei muito triste porque pensei que já não a tornava a ver mas, passadas duas semanas lá estava ela outra vez na minha varanda e piava imenso como se tentasse dizer-me alguma coisa.
Nessa altura ja tinhamos descoberto o ninho. No campanario da capela mortuária de S. Amaro de Oeiras que ficava em frente da nossa casa. Fui buscar os binoculos e, cheia de alegria, verifiquei que estavam duas coisinhas penugentas no ninho a gritar. A Branquinha estava a anunciar-me que tinha tido 2 filhotes.
A minha amizade com a coruja branca, a Branquinha como eu lhe chamava, ainda durou todo o verão mas em Outubro, terminou da forma mais brutal e trágica.
Ainda sinto desgosto quando me lembro disso.
O telhado da capela precisava de obras e eu tremi pela sorte da Branquinha. Vi estarem a pôr os andaimes e falei com os trabalhadores, avisei-os de que havia um ninho de coruja branca que era um animal raro e pedi-lhes para terem cuidado....mas era tarde. Um deles, rindo-se, disse-me que corujas davam azar . Tinham destruído o ninho matando a coruja e as crias.
A dôr e a raiva que senti fizeram-me odiar aqueles homens e quase desejei a sua morte como eles tinham feito à minha amiga, indefesa contra a estupidez, ignorância e maldade humanas.






Zica Caldeira Cabral

4 Comments:

Blogger Menina_marota said...

Meus Deus, a crueldade dos homens...até me saltaram as lágrimas dos olhos!

Uma bela narrativa, adorei ler-te.

Um abraço terno :)

12:23 da tarde  
Blogger Furão said...

Quanto mais vou descobrindo a natureza humana mais amo os animais. Este é um daqueles tipos de texto que mais toca a minha sensibilidade. Os animais e as crianças são o meu ponto fraco, pela pureza e pela inocência. Mas é exactamente por isso que são vítimas constantes de trogloditas. Não conseguimos mudar o Mundo. Resta-nos, por isso, a alegria em cada salvação de uma vida, quando está nas nossas mãos, e a tristeza, em cada relato como o teu.

11:52 da manhã  
Blogger Poesia Portuguesa said...

Li o teu blog de um folego.

Esta históris Lembra-me sempre, qunado a "civilização" chegou à terra do meu Avô... derrubou bosques e pinheirais, não se importando com os ninhos e os pássaros que lá bahitavam. O que queriam era implantar os loteamentos de luxo...

Um jinho terno ;)

11:01 da tarde  
Blogger Poesia Portuguesa said...

Li o teu blog de um folego.

Esta históris Lembra-me sempre, qunado a "civilização" chegou à terra do meu Avô... derrubou bosques e pinheirais, não se importando com os ninhos e os pássaros que lá bahitavam. O que queriam era implantar os loteamentos de luxo...

Um jinho terno ;)

11:02 da tarde  

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