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segunda-feira, outubro 03, 2005


Torto I



Na aldeia chamavam-lhe “o Torto”, nao porque tivesse qualquer defeito fisico , simplesmente porque tinha mau feitio.Trabalhava numa forja, sempre suado e negro de fuligem. Ambicionava respirar outros ares, sentir-se limpo, bem vestido e ter uns sapatos. A pobreza em que vivia tornara-o azedo. Via o tempo a passar e nada se modificava nem conseguia imaginar uma forma de se livrar daquele buraco escuro e sujo onde passava os dias.
Um dia, um cavaleiro parou, apressado, a sua porta e ordenou-lhe que mudasse as ferraduras a sua montada. Tinha o cabelo aloirado, queimado pelo sol e a barba comprida e suja. Vestia uma cota de malha e, por cima, uma sobrecota com flores de lis , desbotada e já rota. Apesar do seu aspecto desleixado e sujo via-se que era um nobre. O cavalo trazia ainda a gualdrapa com os mesmos simbolos. O cavaleiro perguntou onde era a estalagem mais proxima e, à sua indicação, para lá se dirigiu afim de descansar e comer.
Ao fim de duas ou três horas regressou e examinou a montada:
- Muito bem camponês! Fizeste um bom trabalho! Davas-me geito se me acompanhasses. Tenho uma longa jornada a percorrer. Como te chamas?
- Chamo-me Fernão mas todos aqui me chamam “Torto”, Senhor – respondeu baixando os olhos.
- E queres vir comigo “Torto”? Tens aqui familia para dar sustento?
- Não Senhor , não tenho. Sou sózinho e irei com o voça mercê se me quizeredes.
- Nesse caso prepara-te porque parto ao alvorecer.
O “Torto” nem queria acreditar na sorte que lhe tinha caído assim de repente nas mãos. Sair dali e ganhar fortuna e fama servindo um cavaleiro nobre.


Pôs o capeirão aos ombros e cobriu a cabeça com o largo capuz pois caía uma morrinha. Enfiou no bornel um naco de pão e o resto do queijo que lhe sobrara do desjejum e apresentou-se ao fidalgo.
- Estou pronto Senhor. Que quereis que faça?
- Por hora nada, segue-me. Tens montada?
- Um macho de carga, Senhor.
- Muito bem, servir-te-à de montada e para transportar as provisões de que necessitamos.

A atitude humilde que adoptara era-lhe penosa. “Torto” era um homem orgulhoso que nunca baixara os olhos para ninguém mas, este fidalgo vindo do nada que lhe aparecera à porta, era o salvo conduto que precisava para sair dali e ser alguém. Teria que o servir por enquanto, mostrando-se útil e servil. Mas não seria para sempre, tinha a certeza.
Não sabia ainda se este jovem nobre era de posses ou simplesmente um filho de familia sem eira nem beira, aventureiro ou mercenário por conta de outro Senhor mas, sabia que a vida a seu lado seria bem melhor e com mais oportunidades que ali metido naquela forja.
Seguiu o seu novo Senhor perguntando-se o que iriam fazer?. Onde se dirigiam?. Mas manteve um silencio respeitoso. Um criado não faz perguntas, limita-se a obedecer. Não queria que o Senhor o dispensasse ao cabo de umas horas por lhe parecer arrogante. Queria ser-lhe , de tal maneira indispensável que o Nobre nunca mais o quizesse afastar.
Caminharam durante dois dias. O nobre, D. Gastão no seu cavalo árabe e “Torto” no seu macho, normalmente de tiro mas que se adaptara bem a ser montado. Chegaram a um porto e, de boca aberta e de olhos esbugalhados, “Torto” olhava aquela imensidão de água, num eterno movimento de vaivem que o fascinava mas assustava também. Será que o Senhor o vai obrigar a meter-se naquela água toda? E timidamente perguntou-lho.
Gastão deu uma gargalhada sonora.
- Nunca viste o mar “Torto”?. É grande e profundo. Se te metesses nele, sem saberes nadar, afogavas-te. Não, não quero que te molhes, sequer. Iremos de barco para um outro país. Lá tenho a minha família e a minha herança a receber.

A palavra “herança” sou aos ouvidos do antigo ferreiro como música. Riqueza! Ainda bem que o seu novo Senhor tinha de seu.....iria usufruir disso.
A viagem foi penosa, enjoou, quis morrer, desejou estar na sua forja outra vez , maldice a sua ambição por uma vida melhor. Antes o calor, a fuligem e a pobreza do que aquilo.
Mas tudo lhe passou quando, num Domingo, ao cabo de uma semana de sofrimento, aportaram numa pequena cidade, na encosta de um monte, no cimo do qual se erguia um castelo.
- É ali que vivo, com a minha santa Mãe e meus três irmãos mais novos. Meu Pai faleceu numa Cruzada há um ano atrás. Cabe-me a mim, prover agora pelo amparo dos que deixou.
- Pobre Senhora – disse o “Torto” com um ar de piedade fingida.
Na verdade não sentia pena nem preocupação. Os ricos e nobres tinham uma vida cheia de benesses enquanto os pobres tinham que penar a vida toda.
- Demonstras bons sentimentos “Torto”. És um homem piedoso e não te vais arrepender de me ter seguido. Preciso de um homem em quem possa confiar para me acompanhar o tempo todo, ou tratar dos meus assuntos na minha ausência. Serás util como ferrador mas, és inteligente, forte e saudavél. Aprenderás depressa outros oficios.
- Farei o que fôr preciso Senhor.
No dia seguinte D. Gastão chamou-o e apresentou-lhe o frade que vivia no castelo já há muitos anos.
- Este é Frei Bento, vai ensinar-te a ler, escrever e fazer contas. Se aprenderes depressa far-te-ei intendente do Castelo.
- Os números já os sei e fazer contas também mas as letras, foram sempre um misterio. Obrigado Senhor. É uma grande dádiva para mim e vou aproveitá-la.
(continua)

5 Comments:

Blogger Manel do Montado said...

Aguardo o próximo episódio desse Torto. A história promete.
Bjs

5:04 da tarde  
Blogger Micas said...

Fiquei presa no enredo. Aguardo ansiosa pela continuação. Beijinho e boa semana

5:55 da tarde  
Blogger Flávia said...

Será que "Torto" tomará prumo?
Estou esperando.
Beijoks e Boa semana.

1:55 da manhã  
Blogger Menina_marota said...

Estive a colocar a leitura em dia.
Aguardo com impaciência o resto da história.

Um abraço terno e bom fim de semana :)

12:30 da tarde  
Blogger Flávia said...

Sim Zica! Para colocar as fotos no meio do texto é só colocá-la em cima mesmo, como aparecem. Aí, vc clica uma vez em cima dela, para selecioná-la, depois vai puxando até onde vc queira colocá-la.
"É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor de desatina sem doer..."

5:38 da tarde  

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